O que a neurociência fala sobre a criatividade?

O que a neurociência fala sobre a criatividade?

Uma ideia inesperada! Durante um banho, uma caminhada ou até mesmo durante um cochilo. Você já se perguntou o motivo pelo qual a sua cabeça tem insights em momentos como esses, quando você não está focando em nada especificamente?

A neurociência tem evoluído bastante nos últimos anos e estamos começando a entender cada vez mais como alguns mecanismos funcionam. O que faz com que uma ideia apareça “do nada” e como podemos fazer com que sejamos mais criativos a partir de exercícios e práticas mentais.

Em “Elástico: Como o pensamento flexível pode mudar nossas vidas”, Leonard Mlodinow explica porque nos tornamos mais inovadores após nos expormos a pensamentos diversos e divergentes. Segundo o autor, nosso pensamento pode ser colocado em um espectro, onde em um extremo temos o pensamento analítico, e em outro, o elástico.

O pensamento analítico é excelente em seguir regras quando existem estruturas e objetivos pré-definidos. Ele precisa de conceitos já definidos para direcionar as ideias. É como se ele seguisse uma receita ou um algoritmo – o que faz com que esse modo de pensar “ativo” seja muito importante em nossas mentes. Por isso, o pensamento analítico não é tão eficiente quando as mudanças são intensas e aceleradas, pelo simples fato de não existirem regras pré-estabelecidas naquilo que acontece de última hora, na surpresa. Partindo disso, começamos a falar do outro extremo do espectro...

O pensamento elástico quebra regras, premissas e paradigmas. Ele constrói novas estruturas de pensamento, questiona e muda tudo. Isso acontece por meio de conexões entre os mais diversos elementos registrados em nossa mente! São inúmeras correlações, a maioria delas sem sentido algum – que se conectam em nosso inconsciente sem parar, o tempo inteiro.

"Em termos mais simples, o pensamento elástico é deixar seu cérebro fazer conexões sem direção.” - Farnam Street Blog

 

 

A beleza está em poder utilizar a potência de cada tipo de pensamento, combinando as diversas intensidades do espectro em nossas mentes, para darmos conta das demandas que chegam até nós.

A Neurociência identificou que entre as estruturas do nosso cérebro que processam os pensamentos elástico e analítico, existe uma espécie de filtro que controla quais ideias geradas por essas conexões devem ser levadas em consideração, e avaliadas pelo campo analítico do nosso cérebro.

Uma das regras que esse filtro considera ao fazer a escolha, é o que já funcionou em outro momento. Ou seja, corremos o risco de que essa seleção nos leve para um lugar onde existem apenas ideias convencionais, onde situações novas não funcionam.

"O pensamento elástico vem naturalmente para todos os seres humanos, mas uma forma de inibi-lo é através de outro poder exercido pelo nosso cérebro: a capacidade de ignorar impulsos inadequados e ideias “loucas”.” - Leonard Mlodinow

Para alguns, o pensamento elástico é mais fluido. Para outros, é uma tarefa árdua! A boa notícia é que existem diversas maneiras de exercitar o nosso cérebro. Mlodinow propõe 7 maneiras de destravar o poder do pensamento elástico, e uma delas é acolher a diversidade e a divergência.

 

 

Afinal, como isso é possível?

Pesquisas recentes revelam o impacto causado pelas ideias que as pessoas têm ao nosso respeito e como, ao nos expormos às ideias diferentes – mesmo que erradas, nos tornamos mais criativos. Ao sermos expostos a pensamentos diversos e divergentes, mesmo que não sejam válidos ou que a gente não concorde, nosso filtro é influenciado e, de algum modo, “relaxa” e permite que mais ideias sejam levadas ao nosso campo analítico.

 "Quando ouvimos discordância de alguém que é diferente de nós, isso provoca mais reflexão do que quando vem de alguém que se parece conosco.” - Dr. Katherine W. Phillips

 Um exemplo para que você entenda melhor...

Alguns pesquisadores separaram dois grupos e, apenas um deles, foi exposto a opiniões diversas e divergentes das suas próprias. Depois disso, um enigma foi apresentado aos dois grupos e adivinha só... o grupo que teve mais facilidade em decifrar o enigma foi justamente o que teve contato com ideias diversas anteriormente.

 

Agora é a sua vez de tentar...
Então vamos lá, considere este enigma clássico!
O quão longe você pode entrar em uma floresta?

Possivelmente, você pensou qual seria o tamanho dessa floresta. Ou ainda, pode ter pensado em como medi-la ou dividi-la em partes menores para resolver esse enigma como se fosse uma equação. Acertamos?

Mas, se você questionar a sua reação instintiva e reformular o enigma, a solução se tornará óbvia: não é um problema matemático! Todo o enigma não passa de uma questão de percepção e de linguagem. Então você se dá conta, até o meio! Se for mais longe, você sairá da floresta.

Algo parecido já aconteceu com você? Já se sentiu assim antes? Quando a diversidade de pensamentos ao seu redor faz de você uma pessoa ainda mais criativa?

Sobre aquilo que falamos lá no começo do texto, sobre as ideias que “aparecem do nada” na nossa cabeça, em momentos aleatórios, lembra? Pois então, é o mesmo mecanismo que faz com que nossos filtros de percepção “relaxem”. 

De forma bem lúdica, podemos perceber que quando o campo analítico “descansa” um pouco, o filtro percebe e aproveita esse momento para enviar várias ideias legais que estão no nosso inconsciente e assim, nascem as inovações!

Aproveitando o ritmo, deixamos aqui algumas maneiras de destravar o poder do pensamento elástico. Veja só:

  1.     Lute contra o medo de fracassar;
  2.     Aceite estar errado;
  3.     Elimine distrações (aquelas que não deixam a sua mente descansar);
  4.     Aceite a incerteza, explore e desenvolva a paixão pelo novo;
  5.     Pratique Mindfulness; e
  6.     Desacelere para acelerar!

 

 

Na próxima vez que uma ideia “surgir do nada”, lembre-se do que Mlodinow falou sobre o tema e tente explorar ainda mais este assunto. O que acha?

Leia também:

> A longa e sinuosa estrada de colaboração

> O que a física pode nos ensinar sobre colaboração?

> O futuro pertence àqueles que questionam

 

Sobre a autora


Cristhiane Quadros é palestrante e facilitadora nas áreas de Liderança, Desenvolvimento de Times, Inovação e Digital Transformation. Graduada em Engenharia da Computação, com MBA pela FIA/USP, dedicou boa parte de sua vida profissional ao mercado corporativo e hoje faz parte da equipe Hyper Island Américas.

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